A MESA DOS DEUSES DA ERMIDA DO MARÃO

Ermida do Marão, Foto de (c) José Gonçalves | Olhares - Fotografia Online

"No cimo da aldeia da Ermida do Marão há um caminho de terra batida que nos leva a um ribeiro vindo da serra. No Verão esse ribeiro seca fazendo com que se consigam ver as pedras do seu leito. Contou-me um idoso residente na aldeia que nesse ribeiro existe uma rocha que parece um patamar e onde, segundo ouviu dizer aos mais antigos, se reuniam os deuses. A essa rocha davam-lhe o nome 'a mesa dos deuses', pois o formato da rocha assim o parecia."

O que acho interessante é chamarem-lhe "a mesa dos deuses'', onde pelos vistos, segundo o referido idoso, também se banqueteavam. Mas o termo "deuses" vem de onde e de quando? Talvez da passagem dos romanos por cá? E esta história, muito antiga, lá se foi transmitindo oralmente até aos dias de hoje entre os habitantes da Ermida do Marão. 

Lenda ouvida em 2005 por Luísa Rodrigues, de Tabuadelo, Fontes, Santa Marta de Penaguião 
Recolha de Monteiro deQueiroz, [22.02.2021]
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LENDA DA FUNDAÇÃO DE PENAGUIÃO E DA IGREJA DE SÃO MIGUEL

Foto: (c) André Barragon | Flickr

Nos “Livros da Família Guedes, Lamego, 1547-1783” [1], família relacionada com o Morgado de Santa Comba, São Miguel de Lobrigos, sediado na Quinta do Menino D’Oiro, ou Quinta do Lamego, instituído em “1462 por Gonçalo Vaz Guedes, em nome de seu filho Gonçalo Vaz, o Moço”, encontra-se um “Treslado do Pergaminho Velho que se fez authentico, com os registos Del Rey D. Afonso 3° que estão na Torre do Tombo a folhas 101, 102, e 105 do dito Rey”, onde se conta a história, ou lenda, da Fundação de Penaguião e da Igreja de São Miguel.

Fundaçon de Penagion e Igreja de S. Miguel

Como o Abbade de Sam Migel de Borba de Godim esquivasse um dia peitar colheita, e albergagem com boa cor, e franqueza, a Dom Gomes Mem Gedeom, por trager muita gente em saa companha, dixolhe que os Abbades nom guizarão Caldeira para as hostes, ne ele fora nunca contente de tal uzança. Ouvindo esto Dom Gomes, e os que ivam com ele creceulhe arebentina, e nom le catarão as Ordens, athá que alvorizou por seu malgrado, rezando a maldicon de Abiron. Entonces D. Gomes, que hera mui sanhudo, fijo hi rivar em terra aquela Igreja qua era fundaçon de saa avoenga, e el tomado de colera, mas tanto que este fijo se afrigio em seu Coraçon de mal feitoria, e se virou a Deus pelo perdon, mandou casar ao Mosteiro do Sobrado ao Padre que nello era mais sabido que se dizia Gil Affonso, o de seu concelho escreveo do padre Santo de Roma pregandolhe que le mandaçe absolviçom para el e para todos daquel peccado, cá era rico homem, e nom podeia leixar a suas terras, que avea com a sua fadiga populadas, nem andar com todo seu pendon cavalla a Roma. Aprouge ao Padre Santo a tal razom, e mandoula, com condiçon que figuesse outra lgreja maior, e mais coragioza ao mesmo Santo Arcanjo, naquel, ou altro melho paradeiro, que travasse na saa terra, e le doasse mais arvores e erdamentos que acolantre avea de primeiro, e que nom se aleixasse da qual logo alli que todo fosse mui comprido, e que quando se finace fosse soterrado dentro della como le pregava, mas non na principal Capela ao pé do Altar, que hi queria que jouvessem ous Abbades da Igreja, e nom outra ossada salvo de Bispo ou Abbade, mas nom del, ne dos padrons que apos de Venecem aser da questa lgreja, para que se acordassem para senpre de honrar a Crogezia, e que por esto nom les quitava os demais proes, ne fagerem hi ontra capella com altar, donde seus corpos jouvessem, se declarava que mancando semel no postrimeiro padron, nom era contente que ouvesse nella outro padron que o Bispo. O que todo nesta guiza le mandava em pena do seu peccado, e soto sua bençon. Do que todo Dom Gomes foi muito ledo, e em quanto fijo per esto mandamento a tal Igreja no logo em que hora jaz fixou cabel o seu padron, e nom ouzou de lidear, pousava na saa Quinta onde nenhum dos seus o leixou, cá era dellos mui quarta, e huira hi tanta vivenda de gente que populou a queste logo na guiza, que sabedes da grande Villa, e por esta cajom deste tempo em cá ouve por nome = Penna Guedeom = E por que o Bispo Dom Martinho Pirez na vezitaçom que ha pouco fijo por aqui trovou todo esto ser passado na guiza sopra decrarada pregou o Juiz João Affonço, que feita inqueriçom de bons homes, e testemunhas que soubessem desto mandasse fazer de todo instrumento, por que a mingea del nom perdesse o juz que tinha para a lgreja de Sam Miguel mancando nella semel do postrimeiro padrom. E el o mandou fager a mim Tabalion, e eu o figi e firmei aqui com o men nome em trez de Abril de MCCXXIX. + Pedro Folche I.º Aº. Juiz.

Quinta do Menino D'oiro | Quinta do Lamego, Santa Comba, São Miguel de Lobrigos
Foto: (c) www.cm-smpenaguiao.pt
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[1] "Livros da Família Guedes, Lamego, 1547-1783". Estes livros encontram-se no Arquivo Distrital de Viseu num Fundo de Família. A Srª D. Maria Teresa de Aragão Vasconcelos Osório, de Lamego, vendeu ao ADV – Arquivo Distrital de Viseu dois livros. O primeiro é composto por documentos que se prendem com a história nobiliárquica da família. O outro, é cópia integral de todos os documentos constantes do primeiro livro, autenticado pelo escrivão da provedoria.
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in “Os Morgados de Santa Comba, em S. Miguel de Lobrigos, Penaguião, Ensaio Genealógico”, por Vítor Manuel Pacheco Guedes, Porto, 2015, in Cadernos Barão de Arede, nº 6, Revista do Centro de Estudos de Genealogia e Heráldica Barão de Arêde Coelho, Outubro – Dezembro 2015, pág. 73, 81 a 82. Em Revista do Centro de Estudos de Genealogia e Heráldica Barão de Arêde Coelho (arede.eu), http://www.arede.eu/img/CADERNOS_BARAO_DE_AREDE_6.pdf.

Recolhido por Monteiro deQueiroz, [r.08.02.2021]
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RESGATE DA IMAGEM DE N.ª SENHORA DAS CANDEIAS


Canelas do Douro


Outra das histórias que a população de Canelas conta com mais emoção aos mais novos é a do Resgate da Imagem de Nª Senhora das Candeias. 

Conta-se que, quando havia uma procissão em Poiares (terra vizinha), era habitual cada uma das povoações, que pertencia a essa paróquia, levar os seus padroeiros para o cortejo. Por norma, os santos padroeiros entravam de costas na Igreja Matriz, mas, certa vez, os habitantes de Poiares entraram com a padroeira de Canelas (Nª Senhora das Candeias) de frente, para que esta ficasse a pertencer à Igreja de Poiares e, de lá, não a quiseram deixar sair.

O Povo de Canelas não aceitou este abuso e revoltou-se, tendo sido a chefia do resgate entregue aos "Penetras" que, juntamente com o povo, dirigiram-se até à localidade de Poiares, armados com cobertores, armas, paus e cavalos, para poderem recuperar a sua padroeira.

Enquanto os povos de Canelas e de Poiares lutavam entre si, os "Penetras" entraram com um cavalo na Igreja e foram buscar a Nª Senhora das Candeias, a qual, embrulhada nos cobertores, regressou a Canelas.

A partir desta data, a imagem da padroeira desta freguesia não voltou a sair de Canelas para participar em tais cortejos.

Fonte: EB1 de Canelas.
in Contos e Lendas. (comunidades.net), http://canelasdodouro.comunidades.net/contos-e-lendas
Foto: Santuários Marianos de Portugal | Facebook, https://www.facebook.com/santuariosmarianos/
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NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS [III]


Milagre sobre a Raiva
Canelas do Douro

Há histórias e lendas que, ao longo dos tempos, foram transmitidas de pais para filhos. Em Canelas a lenda mais conhecida é a do Milagre sobre a Raiva. 

Lenda do Milagre sobre a Raiva - Conta a lenda que, há muitos anos, mais especificamente em 1764, o Sr. Lourenço Teixeira Pinto Lacerda, membro da alta sociedade, foi mordido por um cão raivoso, quando andava a passear pelas suas quintas.

De início, o Sr. Lourenço não prestou muita antenção ao sucedido mas, com o passar do tempo, começou a sentir-se doente, desconhecendo qual a razão de tão altas febres. Alguns dias volvidos, o fidalgo, ao passar pelo rio Corgo, viu reflectida na água a figura de um cão, o que era um sinal certo de que estava com raiva.

Muito aflito, quando os médicos já não lhe davam muito tempo de vida, virou-se para Nossa Senhora das Candeias e implorou que lhe concedesse o milagre do o salvar daquela enfermidade. Em troca, o Sr. Lourenço comprometeu-se a fazer uma festa em sua honra, até à quinta geração, onde, a cada família, seriam oferecidos um pão bento e uma vela. Nª Senhora das Candeias concedeu-lhe essa graça e o fidalgo, juntamente com a sua família, honraram a promessa feita.

Assim que a família Lacerda, na quinta geração, acabou de cumprir a promessa, o povo de Canelas encarregou-se desta festa, que se realiza no dia 2 de Fevereiro. 

Hoje, esta festa tem características muito específicas. É realizada por meninas donzelas (com idades compreendidas entre o 4 e os 8 anos) que são as mordomas. Durante o ano a família da menina (mordoma) sai pelas ruas da aldeia e, de casa em casa, vai pedir aos habitantes que contribuam com o que quiserem (dinheiro, azeite, ...). O azeite é, depois, vendido, revertendo os lucros dessa venda para a festa. Cada família recebe uma imagem de Nª Senhora das Candeias.

Na véspera do dia 2, pelas 12 horas, ocorre a benção dos cestos do pão, em forma de pássaros e pinhas. Depois da missa os pães bentos são distribuídos às famílias da aldeia. 

No dia da festa uma banda de música percorre o povoado e vai buscar a mordoma, acompanhando-a à Igreja de Nª Senhora das Candeias. 

Durante a Eucaristia é feita a procissão de velas, sendo as velas benzidas para, posteriormente, serem entregues em cada casa. No final da missa, procede-se à nomeação da mordoma para a festa do ano seguinte. 

Relativamente ao pão que é entregue a cada família, no momento em que é ingerido, deve rezar-se uma Avé-Maria à Virgem das Candeias, para que esta ilumine e guie durante mais um ano. 

A vela é utilizada, em dias de fortes trovoadas, pelas pessoas da aldeia, que as acendem perto de uma janela, com o intuito de afastar as trovoadas. 

Fonte: EB1 de Canelas.
in Contos e Lendas. (comunidades.net), http://canelasdodouro.comunidades.net/contos-e-lendas
Foto: Santuários Marianos de Portugal | Facebook, https://www.facebook.com/santuariosmarianos/ 
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NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS [II]


Milagre sobre a Raiva
Canelas do Douro

Diz a lenda que há muitos anos, na data de 1764 o senhor Lourenço Teixeira Pinto de Lacerda, da alta sociedade, foi mordido por um cão raivoso enquanto andava a passear pelas suas quintas.

No inicio não deu muita importância, mas depois, com o tempo, começou a ficar muito doente, não sabendo a razão de tamanha febre. Este fidalgo, dias depois ao passar pelo rio Corgo, viu na água a figura de um cão, e este era o sinal certo de raiva. A raiva era então conhecida como uma doença viral fatal, em geral transmissível ao homem pela mordedura dum mamífero infetado, a vacina só apareceria no ano de 1885, com Louis Pasteur. Muito aflito e como já nenhum médico lhe dava muito tempo de vida, virou-se para a Fé em Nossa Senhora das Candeias e pediu-lhe que, se lhe concedesse o milagre de o salvar daquela enfermidade, ele fazia uma festa em sua honra até à sua 5a geração, onde daria um pão bento e uma vela a cada família.

Nossa Senhora das Candeias concedeu-lhe essa graça e ele juntamente com a sua família honraram a sua promessa. Assim que terminou esta honra pela parte da família Lacerda, este ato tornou-se tradição e o povo tomou conta desta, onde todos os anos no dia 02 de fevereiro se realiza esta festa em honra de Nossa Senhora das Candeias. 

Nesta aldeia a festa tem características muito próprias. Atualmente a mordoma é uma menina escolhida com a idade compreendida sensivelmente entre os 4 e 12 anos, e durante o ano a sua família sai pela aldeia a pedir ajuda a cada casa, para que contribuam com o que quiserem, seja em dinheiro ou azeite, que, depois de vendido, reverte para a festa, nestas visitas é entregue a cada família uma imagem de Nossa Senhora das Candeias. 

Na véspera do dia 2, logo pela manhã, há a bênção dos cestos de pão que têm formas de pássaros e pinhas, os quais, depois de benzidos são entregues às famílias da aldeia e das aldeias vizinhas, casa a casa. 

No próprio dia da festa, uma banda de música percorre a preceito toda a Freguesia, e de seguida vai buscar a mordoma e acompanha-a à igreja de Nossa Senhora das Candeias, numa alegria contagiante. 

Durante a missa é realizada uma procissão das velas, estas são benzidas para depois serem entregues em cada casa. 

No final da Eucaristia é nomeada com todo o secretismo e suspense até ao momento, a mordoma para o ano seguinte, sendo assim, todos os anos desde meados do século XIX. 

Uma crença popular está relacionada com o estado do tempo: “se a Nossa Senhora das Candeias estiver a rir, está o Inverno para vir, se estiver a chorar, está o Inverno a passar”. Ou seja, se o tempo estiver de sol no Dia da Senhora das Candeias, o inverno está a chegar, mas se chover nesse dia, o inverno está a acabar. 

De tarde, a banda toca animada no largo principal da Freguesia e toda gente dança de forma afincada as músicas “ribaldeiras” próprias para dar um pé de dança, onde também os músicos, apesar do frio, tocam avidamente levando a um ambiente de festa genuíno. Todos os pares concorrem ao peixe de bacalhau, bastante abonado e ao garrafão do precioso néctar do Douro, recompensa outrora atribuída pelos senhores abastados, agora substituídos pela Junta de Freguesia. 

O pão entregue, quando comido, deve rezar-se uma Ave Maria à Virgem da Senhora das Candeias, também chamada Senhora da Luz, para que esta nos ilumine e nos guie durante mais um ano, muitas famílias também dão o pão aos animais para que sejam também eles abençoados. 

A vela é especialmente utilizada quando ocorrem fortes trovoadas, as pessoas da aldeia costumam acende-las nas janelas das suas casas em busca de bonança e protecção. 

in Freguesia de Canelas, Peso da Régua, celebra Senhora das Candeias, http://www.public.vivadouro.org/informacao/cultura/%EF%BB%Bffreguesia-de-canelas-peso-da-regua-celebra-senhora-das-candeias/, [p.01.02.2019]
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NOSSA SENHORA DAS CANDEIAS [I]


Milagre sobre a Raiva
Canelas do Douro

Canelas do Douro é uma terra muito antiga, do tempo dos romanos ou até anterior. Foi sede de concelho de 1360 até 1885, mas agora está integrada na União de Freguesias de Poiares e Canelas, concelho de Peso da Régua, distrito e diocese de Vila Real. Viveram nesta terra alguns antepassados de Egas Moniz, o aio do nosso primeiro rei D. Afonso Henriques.

O culto a Nossa Senhora das Candeias, da Purificação, da Apresentação ou da Luz é o que resulta do episódio narrado pelo evangelista São Lucas (Lc 2, 22-40) no qual descreve Nossa Senhora e São José a apresentar o Deus Menino no templo de Jerusalém onde foram recebidos pelos profetas Simeão e Ana. Simeão pegou o Menino nos braços e disse-lhes que Jesus é a “luz para se revelar às nações”.

A Igreja católica celebra este acontecimento no dia 2 de fevereiro.

Há várias lendas sobre Nossa Senhora das Candeias de Canelas. A mais conhecida é a do milagre sobre a raiva em que se conta que um homem abastado foi mordido por um cão raivoso e já muito doente prometeu a Nossa Senhora fazer uma festa em que ofereceria pão e uma vela a toda a povoação. O homem ficou curado a ainda hoje há a tradição de na véspera do dia 2 de fevereiro benzerem o pão e as velas que serão oferecidos à população de Canelas do Douro. 

A romaria à Senhora das Candeias realiza-se nos dias 14 e 15 de agosto. Na procissão desta festa muitas pessoas e crianças vão trajadas representando figuras bíblicas. 

in Santuários Marianos de Portugal – Publicações | Facebook, https://www.facebook.com/santuariosmarianos/posts/2053148288298793, [p.12.05.2018]
Foto: Santuários Marianos de Portugal | Facebook, https://www.facebook.com/santuariosmarianos/
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DESCOBERTA DO "VINHO DO PORTO" PELOS INGLESES


Douro, Lamego, Cambres


Vinho do Porto descoberto em Lamego, Cambres

Terá sido através de um mercador inglês que o depois denominado vinho do Porto passou a ser conhecido e comercializado em Inglaterra. Este mercador, sediado em Viana do Castelo, viajou, a determinada altura, por terras do Douro, tendo ficado hospedado no Convento de Santa Cruz, em Lamego. Ali foi obsequiado pelos monges, que no final de um magnífico repasto, foi brindado com um saboroso vinho de sobremesa "entre ambarado e fogo, que a Ordem colhia num seu couto ou quinta ribeirinha do Douro". Este inglês,"estarrecido" com tal bebida, pois nunca tinha provado coisa melhor na vida, depressa tornou a Lamego para "comprar alguns almudes do precioso néctar". Assim se terá começado a conhecer o vinho generoso de Lamego que, pelo rio Douro abaixo, era desembarcado em Vila Nova de Gaia, para, depois de devidamente tratado, ser exportado para o estrangeiro. Daqui também o nome porque ficou, durante algum tempo, conhecido - Vinho de embarque - cuja verdadeira expansão se inicia, em grande escala, na segunda metade do séc. XVII.

É já no século XVIII, com o Tratado de Methwen, celebrado entre Portugal e Inglaterra, através do qual este país dá condições aduaneiras favoráveis à entrada dos vinhos nacionais, que o vinho do Porto passa a afirmar-se como produto de qualidade internacional, aumentando permanentemente o número de apreciadores e consumidores, não só em Inglaterra, que até 1963 foi o primeiro importador desta bebida de excepção, como em França, que ocupa presentemente esse lugar e, progressivamente, em muitos países do Mundo onde a fama deste vinho conseguiu chegar. 

Texto do Dr. Agostinho Ribeiro, Director do Museu de Lamego.

Etiquetas: Douro, Vinho, Vinho do Porto, Lamego, Varais, Vinho Cheirante, Cambres, Narrativas

Por Urban Plan, https://urbanplan.blogs.sapo.pt/6121.html, [p.05.12.2007]
Foto: Casa dos Varais, in http://www.theportuguesewine.com/
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.25.01.2021]
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LENDA DOS TÁVORAS


Távora - D. Tedo & D. Rausendo


Conta a lenda que, no século XI, dois irmãos, D. Tedo e D. Rausendo, há muito que tentavam conquistar o castelo de Paredes da Beira, que estava na posse do mouro de Lamego.

Cansados do insucesso, resolveram arquitetar um plano para a conquista definitiva da fortaleza.

Numa manhã do dia de S. João, esperaram que os mouros saíssem do castelo para se banharem nas águas do Távora, como habitualmente faziam, e entraram no castelo com o seu exército disfarçados de mouros. Mataram a maior parte dos homens que lá tinham ficado.

Apesar de terem sido avisados por alguns mouros que tinham conseguido escapar, os que festejavam no rio foram atacados e mortos por D. Tedo. O vale do rio passou a ser chamado de "Vale D'Amil" em lembrança dos mouros que tinham sido "mortos aos mil".

A lenda diz que os dois irmãos tomaram a partir da batalha o apelido de Távora, em memória do rio onde se tinha desenrolado a vitória, e adotaram nas suas armas a imagem de um golfinho sobre as ondas, simbolizando a vitória de D. Tedo.

Etiquetas: D. Tedo e D. Rausendo, Lenda dos Távoras, Mouros e Cristãos, Reconquista

In “Lenda dos Távoras”, in Infopédia, Porto: Porto Editora, 2003-2021, https://www.infopedia.pt/$lenda-dos-tavoras, [c.26.01.2021]
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.26.01.2021]
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LAMEGO


Lamego

Pelos annos 1062, era rei de Lamego um mouro chamado Al-Boazan. Tinha uma filha, chamada Ardinga ou Ardínia, que se enamorou do cavalleiro christão, D. Thedon Ramirez (vide Granja do Tédo), filho do infante Alboazar Ramirez (o Cid) e neto de D. Ramiro II de Leão. (Vide Ancora, rio; Calle e Gaia).

Fugiu a moirinha ao pae, vestida de homem, com uma sua collaça por companheira, em busca de D. Thedon.

Chegou a uma ermida, perto do rio Tavora, que era da invocação do apostolo S. Pedro (hoje S. Pedro das Águias) e ahi, vendo um eremitão, chamado Gelasio, lhe disse quem era e a que vinha, dizendo-lhe tambem que se queria fazer christan.

O anachoreta a instruiu nos mysterios da religião christan e a baptisou promettendo-lhe que D. Thedon casaria com ella; o que não teve effeito, porque o pae veio aqui dar com ella e a matou, afogando-a no rio Tavora.

D. Thedon sentiu grande pezar pela morte de Ardinga, prometteu não casar, e cumpriu a promessa.

D’ahi a alguns annos, vindo D. Thedon de obter uma grande victoria contra os mouros, foi surprehendido por uma grande partida d’elles, que, depois de encarniçada resistencia, o mataram junto a um rio, que desde então tomou o seu nome – Thedon – que ainda conserva com pouca alteração, pois se chama Tédo.
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Etiquetas: D. Tedo e D. Rausendo, Lamego, São Domingos, Queimada Ardinga ou Ardínia, Mouros
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APL 2808 - [1]
Fonte: Pinho Leal, Augusto Soares d'Azevedo Barbosa de - Portugal Antigo e Moderno Lisbon, Livraria, Editora Tavares Cardoso & Irmão, 2006 [1873], p.Tomo IV, pp. 37-38
Local de Recolha: Lamego, Viseu

in https://lendarium.org/pt/apl/toponimos/lamego/, [r.25.01.2021][1]

[1] Arquivo Português de Lendas (APL), base de dados do CEAO - Centro de Estudos Ataíde de Oliveira, da Universidade do Algarve (PTDC/ELT/65673/2006), em www.lendarium.org
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.25.01.2021]
Imagem da Net

Foto: (c) Rui Albuquerque
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LENDA ANTIGA DE SÃO DOMINGOS DE QUEIMADA

Queimada

Quando por aqui passaram as hostes romanas de Trajano que acamparam no Castro de S. Domingos, um chefe militar ou lugar-tenente raptou, à passagem por Queimada, uma linda rapariga por quem se apaixonou. Procurou convencê-la a segui-lo para o acampamento. Renitente, acabou por ir à força.

A moça tinha sete irmãos que tentaram, em vão, defender a honra da rapariga. Presos, foram degolados. Um deles, segundo a lenda, terá sido o primitivo S. Domingos em honra do qual foi erguida a ermida, no alto do monte do mesmo nome que na altura pertencia ao termo de Queimada, e de onde se avistam os restantes seis irmãos, todos santos e cada um com a sua ermida, aquém e além Douro, como é o caso de S. Leonardo de Galafura. 
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Etiquetas: Lenda dos Sete Irmãos, Lamego, São Domingos, Queimada
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in Lenda "Defesa de Honra", por Francisco Duarte, Blogue Valdigem, https://franciscoduarte.blogs.sapo.pt/24658.html, [p.15.04.2009]
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.25.09.2020]

"Lenda antiga de São Domingos de Queimada", in Município de Armamar, https://www.cm-armamar.pt/pages/576, 
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.26.09.2020]
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LENDA DA EPOPEIA DE LICONIMARGI

Lamego

Há tanto, tanto tempo, que a memória já não consegue alcançar, perto da actual cidade de Lamego existia uma grande cidade, povoada de gente estranha e invulgar pela sua estatura. Dizem os antigos que os homens dessa tribo não mediam menos de dois metros de altura. Eram fortes, sem serem gordos, valentes sem serem duros, e cumpridores dos seus deveres, nem que para isso tivesse que correr sangue.
Entre as famílias que habitavam o local, quase todas de origem grega, destacava-se uma delas, composta de pai e sete filhos, famosos pelas suas virtudes e pela grande amizade que os unia. Porque habitavam a parte alta do monte, chamavam-lhe, precisamente — a Família do Monte.
Certa tarde, o bom do velho chamou os sete filhos, pois precisava falar-lhes. Receosos de que o pai não se sentisse bem, acorreram com evidentes sinais de ansiedade. Porém o velho sorriu e declarou-lhes:
— Meus queridos filhos! Orgulho-me de todos vós! A amizade que nos une fará de nós um grande povo. No entanto...
O velho suspendeu a frase. Seu rosto, onde um sorriso de bondade resplandecia, ensombrou-se de súbito. Fez-se silêncio por alguns segundos. Mas logo o filho mais velho quebrou esse silêncio.
— Senhor meu pai! Que vos entristece? Algum de nós teve a infelicidade de vos desagradar?
O velho meneou a cabeça negativamente, voltando a sorrir, embora com tristeza.
— Meus filhos! Como podeis desagradar-me, se sois tão bons, valentes e dedicados? O trabalho sempre vos honrou. Mas… o que o futuro possa trazer é que constitui a minha ansiedade!
Entreolharam-se os sete irmãos. E o mais velho tornou a falar.
— Algo vos preocupa? Dizei, senhor!
O velho guardou silêncio por algum tempo, olhando obstinadamente o horizonte rubro onde o Sol se escondia. Depois, num suspiro lento e fundo, esclareceu:
— O firmamento está em fogo! Parece sangue a entornar-se na terra...
— Isso vos preocupa assim? Todos os dias, no tempo quente, o Sol se põe de tal maneira que mais parece labareda...
— Mas hoje... hoje, olhando melhor todo este espaço azul... tive como que um pressentimento... Quase que uma visão!
— Assustais-nos, senhor!
— Sois todos jovens e solteiros. Todos vós tendes braços fortes para combater e coração para amar ou odiar!...
— Prefiro o amor, senhor meu pai...
— Dizeis isso com um olhar estranho. Acaso o vosso coração já escolheu esposa?
— Sim, meu pai. Julguei até que fosse esse o motivo da nossa reunião. Por isso fui buscar Maria. Ela está esperando lá fora. Se a aprovardes, casaremos. Se não for de vosso gosto... deixarei que ela parta!
— Embora devesse calcular que um homem não pode viver sem o afecto de uma mulher, tinha esquecido esse facto! Sois todos homens... tendes direito a escolher companheira. Mas atentai bem no que ides fazer! A hora é de fúria e mágoa e não de paz e amor! Mas ide buscar Maria. Quero vê-la. E se me agradar... é bom que ela também oiça o que mais tenho para vos dizer!
Saiu, solícito, o filho mais velho. Ficaram os outros seis. Voltou o pai a falar:
— E vós? Não tendes ainda feito a vossa escolha?
Um silêncio curto seguiu-se à pergunta. Mas logo o filho segundo declarou:
— Não encontrámos ainda quem possa vir a ser digna filha de santo como vós!
Sorriu, o velho. Um sorriso bondoso, discreto.
— Não sou santo, meus filhos! Sou apenas o velho Domingos do Monte, que teve a dita de conhecer a lei de um homem chamado Jesus, o qual é filho de um Deus, o único! Por ele lutaremos até ao nosso último alento! Antes, cometi muitos pecados. Não vira ainda a verdadeira luz. Mas hoje... com a graça de Deus... sou feliz!
Fez-se novo silêncio. Mas já o filho mais velho se apresentava com uma linda jovem de feições correctas, olhos grandes cor de avelã e cabelos dum castanho arruivado. Na sua expressão quase tímida recortava-se um profundo respeito e um grande carinho. Sem dominar o seu entusiasmo, o filho primogénito do velho Domingos acercou-se do pai.
— Ei-la, senhor! É linda, como vedes!
O velho sorriu. Olhou-a bem nos olhos e sentenciou:
— A sua beleza assemelha-se à de um anjo! E a sua bondade também.
A jovem corou.
— Senhor, como vos agradeço essas palavras! O meu coração quase nem batia, receosa de vos desagradar. Agora, porém, sinto-me completamente feliz!
— Sabeis qual a nossa religião?
— Sou Maria, como a Mãe de Jesus...
— Pois então dou-vos o meu consentimento e a minha bênção! Maria vale bem a vossa afeição, meu filho! Ela ser-vos-á fiel durante o resto da vossa vida e até para além da morte!
Maria beijou com arrebatamento as mãos do velho.
— Como sois bom! Razão têm os que vos chamam santo!
O homem abanou a cabeça.
— Santo não sou, embora me sentisse feliz por morrer como morrem esses santos mártires! Mas ouvi agora o que tenho a comunicar-vos.
De novo um silêncio perpassou no espaço. Com os olhos voltados para o ocidente, o velho parecia cismar. O vento, fazendo mexer a urze do monte, aromatizava a tarde com um perfume suave. E só depois desse silêncio o velho Domingos retomou a palavra, num acento grave, impressionante:
— Filhos! A hora que atravessamos é dura. As nossas terras têm sido pasto de roubo e crime, levados a cabo pelo povo invasor. Os Romanos têm vindo de vencida, e com eles as maiores das traições. É tempo de dizermos «não» ao seu imperativo destruidor. Se for necessário dar o nosso sangue pela lei de Cristo e pela nossa liberdade, não hesiteis em cumprir o vosso dever!
Pedro, o filho mais velho, arriscou:
— Temo-lo a nosso lado, meu pai! Isso bastará para que sejamos fortes!
Desta vez o velho sorriu. Na sua fronte pálida vincou-se uma forte ruga. A sua voz tornou-se mais fraca.
— Devo ainda acrescentar que pouco tempo mais terei de vida.
— Como o sabe, meu pai?
— Sei. Deus chamar-me-a no dia em que estas terras estiverem resolvidas a revoltarem-se contra a destruição dos nossos haveres e liberdade. A lei de Cristo vencerá no Mundo. Mas antes… terá de correr muito sangue! Por isso o firmamento está em fogo!
Aturdido com estas palavras em que acreditava piamente, Pedro suplicou:
— Senhor meu pai! Antes de nos deixardes, dizei-nos exactamente o que devemos fazer. Sem vós, encontrar-nos-emos vazios!
Então o velho ergueu-se e lançou a sua bênção sobre os sete filhos e sobre Maria. Depois, com voz em que se ia notando o cansaço, expôs o seu plano. Quando terminou, um dos filhos exclamou com entusiasmo:
— E venceremos, decerto!
O velho baixou a cabeça. Depois olhou o céu e murmurou quase:
— Há muita forma de vencer, meus filhos, mesmo quando aparentemente ficamos sem coisa alguma. Lutar pela lei de Cristo e morrer com glória, de forma que esse exemplo seja um grito de incentivo a outros que nos possam seguir — não é perder, é ganhar a Vida Eterna! Olhai os santos mártires. Foram supliciados e mortos. Aparentemente, dir-se-ia que os Romanos os venceram. Mas o seu gesto, a sua firmeza, a sua candura, a sua fé, continuam vivas até nos corações dos seus próprios e carrascos! Venceram, pois... e de que maneira gloriosa!
Calou-se o velho. Cada vez mais fraca, a sua voz era quase um sopro. Rodeado pelos filhos, que faziam agora esforços por conservar a calma digna do momento, o Domingos do Monte, abençoando mais uma vez os sete rapazes, ficou-se serenamente de olhar perdido, fixo, a contemplar o céu quase rubro de um esplêndido pôr de Sol!
Em silêncio, cabeças baixas, os filhos choravam. Maria, mordendo os lábios para não irromper num choro convulso, agarrou-se ao braço do seu companheiro. Então, Pedro, sentindo a pressão dos dedos nervosos da bem-amada, murmurou, numa voz a que a emoção dava maior realce:
— Morreu um santo! Há pouco parecia ainda cheio de vida! Aqui juramos cumprir o seu desejo, e ainda construir, neste mesmo local, uma pequena ermida, onde o seu corpo repouse para todo o sempre!
A cor rubra do pôr do Sol tornou-se mais escura, quase violeta. O vento fresco da tarde fez baixar em reverência as humildes ervas do monte. E a noite, na sua majestade, veio fechar esses olhos que obstinadamente olhavam ainda para o céu...

Reinava então em Roma o imperador Trajano. Havia algum tempo que a paz aparente vivia na Lusitânia. Sujeitos às leis romanas, embalados ainda pelas palavras de Octávio quando viera à Península «pregar o seu sermão», os povos oprimidos pareciam não aspirar à liberdade. Mas, de súbito, duma cidade da serra onde Viriato lançara a chama da rebelião, as cinzas mal extintas dessa ânsia de independência e o ódio mal apagado das traições que tinham sido cometidas irromperam com toda a sua chama e todo o seu vigor. Comandava a revolta um homem novo, que, ajudado pelos seis irmãos, dir-se-ia incarnar o próprio espírito lusitano.
A surpresa deixou por momentos atónitos os próprios romanos. A revolta estava bem organizada. Espalhados por diversas cidades, os irmãos mantinham vivo o esforço lusitano. Bem tentavam cercá-los os soldados de Roma, mas os pedregulhos surgiam de todos os lados. A revolta alastrava-se, e o pretor teve de enviar com urgência um emissário a Roma, pedindo reforços e ordens.
Ao saber da revolta da Lusitânia, que ele julgava já prostrada sob o seu pé de ditador, Trajano gritou.
— Quero esmagados todos esses cães! Todos! Nem que para isso tenha de deitar fogo à Península Ibérica!
Lembrando o emissário a falta de homens para combater e a ferocidade dos revoltosos, Trajano perguntou:
— Não tenho eu bastantes soldados na Espanha que possam fazer calar esse punhado de doidos?
Com serenidade, para não aumentar a cólera do imperador, o emissário retorquiu:
— Os Lusitanos têm todos a alma de Viriato.
— Que quereis dizer com isso?
— Que para cada homem precisamos nós de três...
A cólera de Trajano subiu ao rubro.
— Como tens a ousadia, tu, um romano, de fazer semelhante declaração na minha presença?
O emissário curvou a cabeça sem responder. Então, gritando, quase convulsivo, o imperador despediu-o.
— Vai! Vai e diz ao teu chefe que para sua vergonha terei de mandar catorze legiões, a fim de ser sufocada uma rebelião na Lusitânia. Mas pensai bem: quero tudo limpo! Tudo sereno! Nem que tenham de fazer da Espanha uma grande fogueira!
O cerco das legiões chegadas de Roma e de outros locais mais próximos apertava-se consideravelmente. A revolta, que parecia estar quase vingada, começou a tremular como chama de vela à corrente do ar enraivecido. Alguém viera trazer a Pedro, que chefiava Liconimargi, tristes novas sobre as outras terras. Seus irmãos tinham perecido e a revolta fora subjugada... Então Pedro voltou a olhar o céu.
— Morreremos também neste monte, tal como jurámos a meu pai! Tu, Maria, podes fugir ainda. Não quero que os romanos te encontrem!
A jovem, pálida e emagrecida, encostou-se ao braço forte do seu companheiro.
— Morrerei contigo! Deixa-me que participe dessa graça!
Já o fumo subia pela montanha. Uma grande fogueira que parecia não ter fim... Pedro exclamou:
— Senhor meu pai! Morreremos no nosso posto! E que o nosso exemplo sirva de força àqueles que vierem depois de nós!
Tragicamente, as gigantescas línguas de fogo subiam, subiam, apertando o cerco. Lá em baixo, ouvia-se a algazarra das legiões em fúria. Decerto matavam e roubavam os sitiados. No alto do monte, porém o fogo crepitava. Nuvens de fumo cresciam, tapando o Sol. A penumbra tirou o lugar à luz naquela manhã fatídica. O cheiro acre das queimadas empestava os ares. À noite, vistas de longe, as labaredas que crepita no cimo do monte dir-se-iam as chamas do próprio Inferno. Porém quando a manhã chegou, a Lusitânia estava calma. A força vencera, aparentemente. Mas o espírito desse heroísmo que ficara nos ares levado pelo vento ainda hoje se conserva, através dos séculos!...

Trajano mandou que trouxessem à sua presença o emissário que trazia novas da Lusitânia. Logo se apressaram a cumprir essa ordem. Um tanto altivo, o novo emissário encarou o seu imperador.
— Salvé, Trajano! Trago-te boas notícias.
— Que fizeram dos revoltosos?
— Mortos. Todos mortos!
— E a terra?
— Queimada! Liconimargi e os seus arredores são um montão de cinzas. Mas a rebelião findou!
Levando a mão ao queixo, Trajano teve um trejeito de indiferença, e exclamou:
— Queimada! Toda a terra queimada! Também não se deve ter perdido grande coisa!... Agora, quero confirmado o sossego na Lusitânia!
Mas pouco durou esse sossego! Os homens vivem de luta e para a luta. A ambição tolda-lhes a consciência. De novo a Lusitânia foi invadida, mas desta vez por outros povos vindos de mais longe...
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APL 2794 - [1]

Fonte: MARQUES, Gentil - Lendas de Portugal, Lisbon, Círculo de Leitores, 1997 [1962], p.Volume II, pp. 303-308
Local de recolha: Lamego, Viseu
in https://lendarium.org/pt/apl/tempo-dos-romanos/lenda-da-epopeia-de-liconimargi/, [c.25.01.2021][1]
[1] Arquivo Português de Lendas (APL), base de dados do CEAO - Centro de Estudos Ataíde de Oliveira, da Universidade do Algarve (PTDC/ELT/65673/2006), em www.lendarium.org
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.25.01.2021]
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A CRUZ DO PEDRO


Fontelas


Nas minhas duas caminhadas de reconhecimento pelo Monte Moirinho, ou Mourinho, cujo cume e caminho (antiga estrada medieval do Moirinho, ou Mourinho) servem, em parte da sua extensão, como delimitação de fronteira entre os Concelhos de Peso da Régua e Mesão Frio, entre as Freguesias de Fontelas e Oliveira, Loureiro e Moura Morta, reparei que no Caminho de Pensais, que liga o Paço de Fontelas ao Pinheiro Manso, existe por cima da Quinta Além da Fonte uma Cruz gravada em alto relevo em duas pedras de xisto, que por sua vez estão incluídas num muro de pedra seca, também em xisto. 

Essa cruz tem na base a inscrição “PADRE ИOSSO”, exatamente com o “N” ao contrário, assim: “И”.


Nas imediações dessa cruz, mais abaixo, para quem desce o referido Caminho de Pensais, existe outra pedra, mais pequena, muito próximo da base do caminho, com a inscrição “ANO I80I”.


Fiquei intrigado sobre qual seria o significado da referida cruz e das inscrições.

Após tentar saber sobre o assunto, eis que o senhor Alfredo José Elias Pereira, vizinho de Fontelas, conhecedor de muitas estórias, e até histórias, da sua terra, me contou o seguinte:

“É a Cruz do Pedro, nesse sítio foi assassinado o Pedro. Os meus avós tinham mais acima uma vinha e então eles e a gente do povo contavam isso, que naquele sítio tinham matado um homem, que ele se chamava Pedro, e por esse motivo lhe chamam a Cruz do Pedro, já lá vão muitos anos. E lhe fizeram aquela Cruz em memória. Lembro-me a minha avó sempre que lá passava rezava um Pai-Nosso; segundo ela me contou o homem estava a defecar e alguém lhe atirou como uma pedra em cima” da cabeça, matando-o! 

Segundo a tradição, as pessoas que lá passam devem parar e rezar um Pai-Nosso pela alma do Pedro.


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in AmigosDeFontelas1905 | Facebook, https://www.facebook.com/groups/802364846619676,
Alfredo José Elias Pereira | Facebook, @alfredo.joseeliaspereira

Recolhido por Monteiro deQueiroz, [r.10.12.2021]
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A AVAREZA QUE SE TRANSFORMA EM TRAIÇÃO

Galafura
[Pensava-se, antigamente, que se uma pessoa tivesse o mesmo sonho três vezes seguidas esse sonho se tornava realidade.]

Os nossos antepassados, não de anos muito longínquos, viviam as suas vidas os seus serões de forma muito sábia e saudável.

Não havia televisão ou as que existiam, mais recentemente, eram escassas e os serões serviam para os mais velhos contarem aos seus descendentes histórias / estórias que vivenciaram ou ouviram de seus ancestrais, algumas que estes acreditavam ter algo de real… Contavam que sonhando três noites consecutivas com uma mesma coisa, de forma muito clara… esse facto ou outro existia e ou aconteceria mesmo…

Lembro que o meu avô materno, homem sem estudos mas com grande sabedoria, nos contava que em tempos havia sonhado várias noites seguidas que num lugar, há muito esquecido, tinha existido uma casa, onde ainda permaneciam vestígios da sua existência; que de baixo de uma grande pedra, que seria a soleira de entrada dessa casa, lá bem enterrado, se encontrava algo de valor… um tesouro. 

Contava o meu avô que temeu tomar a decisão de lá ir sozinho. Pois segundo ele, só lá poderiam ir a altas horas da noite. Contou a um familiar que prometeu guardar segredo e combinaram ir lá os dois… Só que tal como nos dias de hoje a avareza e traição foi mais forte… e esse familiar foi lá antes… Conta o povo que esse familiar encontrou um pote com muitas libras em ouro e ficou muito bem de vida… 

Esta estória, assim como outras contadas pelos nossos ancestrais, não podem ser comprovadas, mas eram, no passado ainda bem recente, e ainda hoje, pelos nossos concidadãos mais idosos, ou residentes nas aldeias do interior, ou até menos instruídos, como se tratando de vivências reais… de histórias realmente acontecidas.
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Informante: Anabela Morais | Facebook, @anabela.morais.9, 52 anos, de Vila Marim e Vila Jusã; de São Miguel de Lobrigos. Estórias/lendas do meu avô materno, Albino Gomes, o "Galafura", natural de Galafura, Concelho do Peso da Régua.

Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.23.jan.2021]
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LENDA DOS 3 RIOS II


Rios Douro, Tejo, Guadiana


Onde se conta a história da formação dos três maiores rios ibéricos: o Douro, o Tejo e o Guadiana eram apenas três pequenos riachos. Até que um dia tiveram uma ideia. 

Não sabemos ao certo quando aconteceu, mas foi certamente já depois do quarto dia da criação, feitas que estavam as águas e a terra e povoadas de cetáceos e aves. 

O Tejo, o Douro e o Guadiana eram não mais do que três pequenos riachos amigos contentes com a vida que levavam. Um dia visitou-os uma gaivota e contou-lhes histórias de um mundo que já era grande. E disse-lhes da vastidão dos azuis que se viam quando a terra acabava lá para os lados do ocidente. 

Os três pequenos riachos pasmaram. “Tanto azul! ” Um espanto que se entende. Só conheciam o azul do céu, que naqueles primeiros dias ainda não tinha ficado cinzento, o castanho da terra e o verde das plantas que ainda não tinham florido. 

A vastidão dos azuis, os tons do mar a fundirem-se com os do céu, estimularam-lhes a imaginação. Sabemos que o tempo geológico é muito diferente do humano, e tudo se conta por milhões de anos. Mas naqueles tempos era diferente, e três riachos já com dois dias nos primeiros tempos da criação podem ser considerados adolescentes. E sabemos como os jovens podem ser voluntariosos. 

Ao cair da noite, o Tejo, o Douro e o Guadiana conversaram sobre o mundo que não conheciam e sobre a grande aventura que seria a viagem até ao mar. Davam força uns aos outros. A imaginação a voar impedia o sono de chegar e, puxa por este, dá força àquele, combinaram que pela manhã iriam partir à descoberta do mar e que veriam qual seria o primeiro a chegar. 

Deus tinha nesse dia criado os luzeiros no céu, o sol e a lua, o dia e a noite. E quando amanheceu, o Guadiana foi o primeiro a acordar. Tentou, sem êxito, que os dois outros rios acordassem e, como não conseguiu, fez-se sozinho ao caminho. 

Olhou para o terreno e virou a sul, correndo indolentemente pelas planícies alentejanas e os vales algarvios. Às tantas, viu o caminho estreitar-se e teve mesmo de dar um salto. Mais tarde, os humanos chamar-lhe-iam Pulo do Lobo, ali ao pé do que seria Mértola, mas o mais certo seria ter-lhe chamado Pulo do Rio, porque sabemos que foi este o primeiro a dar o salto, muito mais difícil do que o que ficou célebre. Porque o lobo só teve de dar balanço para atravessar o rio, e o Guadiana ousou lançar-se até lá abaixo. 

Depois deste pequeno incidente, a viagem decorreu tranquila até que pela primeira vez o Guadiana viu o mar e fez um último esforço para o abraçar. 

O segundo a acordar foi o Tejo. Viu que o Guadiana já tinha partido e lançando um último olhar de adeus ao Douro pôs-se a caminho. Foi correndo veloz pelos vales até que encontrou as portas que abriam um caminho mais tranquilo. Pediu licença e abriu-as de par em par. Uma eternidade depois, chamar-lhes-iam Portas de Ródão. A partir daqui foi com mais calma, olhando tudo à sua volta e cumprimentando os grifos e as aves de rapina que já por lá se viam. 

O Tejo, depois, espraiou-se pelas lezírias ribatejanas e quando viu o mar ficou tão contente que quase se fez mar ele próprio, alargando até mais não poder e tornando-se quase adulto. 

O Douro fora o que mais excitado ficara com a expetativa da grande aventura. Adormeceu tarde e tarde acordou. E quando o fez e viu que já estava sozinho atalhou a direito, sem olhar a caminho. Percorreu veloz o caminho que o levava ao mar, escolhendo cada passo a dar com a única preocupação de chegar. Se tivesse acordado cedo, teria tido tempo para apreciar a bela paisagem dos montes a que a sua água daria vida. Mas não acordou, e por isso foi sempre numa correria, sempre rodeado de montes e colinas, até finalmente encontrar o mar. 

Há quem diga que apesar de ter acordado tarde, o Douro foi o primeiro a ver o mar. Outros dizem que não. Mas a verdade é que a única testemunha seria a gaivota, que não conseguiu acompanhar o ritmo dos três riachos feitos rios. 

E se alguém vos disser que sabe com certeza de coisa vivida qual dos 3 rios primeiro chegou é caso de desconfiar, porque o homem só foi criado um dia depois desta grande aventura em direção ao mar.
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Por JORGE MONTEZ, in Portugal de Lés a Lés, https://portugaldelesales.pt/a-lenda-dos-3-rios/
Recolhida por Monteiro deQueiroz, [r.23.jan.2021]

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LENDA DOS TRÊS RIOS I


Rios Douro, Tejo e Guadiana


Era uma vez três rios que nasceram em Espanha. Chamavam-se Douro, Tejo e Guadiana. Um dia estavam a contemplar as nuvens e perguntaram-lhes de onde vinham. -Vimos do mar, responderam elas.

Do mar! Onde fica o mar? Será longe? Será grande? Vamos vê-lo?

Combinaram na manhã seguinte ir ver o mar, mas o Douro como era o mais reguila, propôs que fizessem uma corrida para ver quem chegava mais depressa.

Na manhã seguinte o Guadiana foi o primeiro acordar e lá vai ele calmamente, contemplando as belezas que o espreitavam e escolhendo os caminhos por onde passava. Chegando a Vila Real de Santo António parou maravilhado.

O segundo acordar foi o Tejo. Já o sol ia alto. Começou andar depressa quase nem escolhendo o caminho, mas quando entrou em Portugal, pensou que já levava muito avanço e lembrou-se de apreciar as campinas e os Montes, espreguiçando-se nas margens planas, antes de se lançar no mar.

O Douro, dorminhoco, quando acordou e se viu só, nem esfregou os olhos. Partiu à pressa por desfiladeiros e precipícios, não escolhendo caminho, nem gozando a natureza.

Mas desta forma, muito sujo e enlameado, foi o primeiro a chegar ao mar e assim ganhou a corrida.

É por isso que é o mais tortuoso.
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Informante: prof. Aurora Carvalho | Facebook, de Fontelas, @aurora.vieira.10, [22.jan.2021]
Recolha de Monteiro deQueiroz, [r.22.jan.2021]
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LENDA DA PLANTAÇÃO DA PRIMEIRA VINHA NO DOURO

Imagem 1
LENDA DE SANTA MARTA
Painel central do vitral existente na Casa do Douro, Peso da Régua

Santa Marta de Penaguião - São Miguel de Lobrigos

[LENDA-NARRATIVA FICCIONADA DE AUTOR]

Reza a lenda que num belo dia, em plena Idade Média, um nobre cavaleiro francês, o Conde de Guião, que andava em campanhas por Terras do Douro e Marão, mandou queimar uma capela localizada algures nas terras montanhosas de Pinna Guian.

Após ter cometido tão grande sacrilégio apareceu-lhe Santa Marta. O Conde, envergonhado, não quis enfrentar a Santa, rodopiou levemente sobre si para a esquerda e tapou a face com a mão direita.

A Santa questionou o Conde pela sua afronta e sentenciou-lhe um castigo: a partir daquela data iria plantar uma vinha de raiz e cuidar dela. Deixava assim de ser um nobre guerreiro e passaria a ser um simples vitivinicultor, um homem do povo.

Arrependido e humilhado, o Conde destapou os olhos e reparou que tinha a seus pés um corvo, ave profética e sagrada, símbolo do mal.

Virando-se para a cultura da vinha a fim de cumprir a pena que lhe fora sentenciada, o Conde, agora o "Vitivinicultor Guião", foi cumprindo, contrariado, ao longo dos anos e até ao fim da sua vida a sua dura penitência. Antes nada tinha produzido para além de guerrear, matar e saquear. E granjear a vinha é duro! Só mesmo quem conhece do ofício é que sabe! Três meses de Inverno e nove de Inferno, assim fala o povo destas paragens. E trabalhar durante o inverno, e no inferno, não é "pera doce" nem para qualquer um!

No fim da sua primeira vindima, ao ver o fruto do seu trabalho, a Guião até os olhos se lhe brilharam de felicidade. Pela primeira vez via o produto do seu árduo, duro e justo trabalho de anos: os cachos de uvas da sua vinha; o resultado do seu suor. E uma vinha não produz logo no seu primeiro ano.

Entretanto, a capela antes incendiada já tinha sido reconstruída. Guião ofereceu então, reconhecido, à Santa as primeiras uvas da sua primeira vindima, fruto do seu trabalho, produto do cumprimento da sua pena. Dessa forma, Guião, agradecia e pedia também à Santa o seu perdão final. 

O Conde estava perdoado. A Santa tinha-o perdoado. Podia então morrer em paz.

Eis então que desaparece o corvo, símbolo do mal, dando lugar a três pombas brancas e a um cordeiro que representam a paz e a pureza, símbolos do bem.

Diz o povo destas paragens que o Conde de Guião foi o primeiro homem a granjear a vinha na região, que, séculos mais tarde, se veio a tornar na primeira região demarcada vitivinícola do mundo: a Região Demarcada do Douro. 

Os durienses, aqueles que trabalharam e ainda trabalham a vinha, foram e ainda são os verdadeiros herdeiros do Conde de Guião. E não se esqueceram dele: todos os anos, no seu feriado municipal, os santa-martenses costumam representar a sua "Lenda Fundacional" ao ar livre na Praça Principal da Vila, junto ao Edifício Municipal; e há quem afirme que este será o resultado da evolução, somando os melhoramentos aos aumentos, durante séculos, do inicial "abrigo" do Vitivinicultor Guião. Talvez parte das suas fundações sejam ainda os alicerces originais do Palácio do Conde de Guião, de Guion, ou de Guillon, conforme as versões. Será a evolução do antigo "palacio francisco" dos tempos de El-Rei Dom Afonso Henriques?

Esta lenda encontra-se representada no painel central do vitral existente na Casa dos Durienses Vitivinicultores, sita na Cidade do "Peso da Régua, Capital do Douro e Cidade do Vinho" - Imagem 1.


Imagem 2
Parte do vitral, lado esquerdo do painel central, onde estão representados
a Capela a arder, Santa Marta, o Conde de Guião e o corvo.

Imagem 3
Parte do vitral, lado direito do painel central, onde estão representados
o Conde de Guião a oferecer as uvas à Santa, o Cordeiro e as 3 pombas.

Adaptação de Monteiro deQueiroz, [dia 21, ano 21, séc. 21]
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Nota 1: “Pinna Guian”
In delimitação do Couto da Albergaria do Marão, criado em Março de 1134 por D. Afonso Henriques, doc. do Arquivo Distrital de Braga, Gaveta de Coutos e Honras, n.º 2. / por PARENTE, João, Idade Média no Distrito de Vila Real, Tomo I, pág 101.
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Nota 2: Monte Penaguião = Fraga da Ermida / Marão
In Dei nomine. Ego rex domnus Sancius una cum filiis et filiabus meis facio tibi Bono Homini kartam de hereditate mea propria quam habeo in Pena Guian. Et est pernominata illa heremita de subtus monte Pena Guian quomodo diuidit cum Ferraria et de alia parte cum populatione de Fontes et de Crastelo et de Tauuadelo.” In Documentos de D. Sancho I, n.º 143, pp. 222 e 223. Chancelaria de D. Afonso III, livro 2, f. 30 v. / por PARENTE, João, Idade Média no Distrito de Vila Real, Tomo I, pág 201. 
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Nota 3: Conde de Guião 
3.a. Conde de Guião:
Não se conhece, que se saiba, quaisquer referências históricas ao Conde de Guião, também escriturado Guion ou Guillon, se seria realmente este o seu nome, se era de origem francesa ou até sequer se alguma vez existiu. Que tenhamos conseguido apurar, nem se sabe como surgiu a forma Guillon. Também não se sabe se se trata de um nome próprio ou de um apelido de família.

3.b. Sabemos que acompanhando o Conde Dom Henrique da Borgonha, mais tarde Conde de Portucale, pai do rei Dom Afonso Henriques, vieram à Península na passagem dos séculos XI para XII vários nobres franceses.

3.c. “palácio francisco” = “palácio francês”:
Na Carta de Doação da Ermida de Santa Comba, na margem esquerda do Corgo, de 24.abr.1138, emitida por Dom Afonso Henriques, é referido nas delimitações do couto um “palacio franscisco”, sendo que “francisco”, há data, significava francês. In Chancelaria de D. Afonso III, livro 2, f. 72 v.; Leitura Nova, livro 2, f. 260. / por PARENTE, João, Idade Média no Distrito de Vila Real, Tomo I, pág 112.

3.d. Guillon:
Em França, na região administrativa de Borgonha-Franco-Condado, existe uma comunna chamada Guillon (Guillon-Terre-Plaine).
Borgonha é a origem do Conde Dom Henrique, mais tarde Conde de Portucale, pai do rei Dom Afonso Henriques.

3.d.1: “Guillon é uma comuna francesa na região administrativa de Borgonha-Franco-Condado, no departamento de Yonne. Estende-se por uma área de 11,86 km². Em 2010 a comuna tinha 464 habitantes.”  in https://pt.wikipedia.org/wiki/Guillon, [r.21.jan.2021], Wikipédia, a enciclopédia livre.

3.d.2: “Guillon-Terre-Plaine é uma comuna da França, no departamento de Yonne. Foi instituído em 1 de janeiro de 2019 pela fusão das antigas comunas de Guillon (a sede), Cisery, Sceaux, Trévilly e Vignes.” in https://en.wikipedia.org/wiki/Guillon-Terre-Plaine, [r.21.jan.2021], Wikipédia, a enciclopédia livre.
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Nota 4: Santa Marta
Marta, irmã de Lázaro e de Maria Madalena, três amigos de Jesus Cristo que viveram em Betânia, antiga Judeia, simboliza o trabalho e é representada iconograficamente como dona de casa diligente, sendo padroeira das donas de casa, com uma vassoura, uma concha de sopa, ou um molho de chaves na mão. O seu dia litúrgico celebra-se a 29 de Julho. O culto a Santa Marta liga-se a uma devoção anterior à Nacionalidade e bastante divulgado na Idade Média, sendo este culto um dos mais antigos na Península, sobretudo no norte de Portugal. 
in Net & in https://santamartadepenaguiao.wordpress.com/2011/03/29/hello-world/, [r.28.dez.2020]
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Nota 5: Santa Marta, hagiotopónimo (ou topónimo com o nome da Santa):
(O lugar de) Santa Marta, atual vila sede do Concelho de Santa Marta de Penaguião, aparece referenciada pela primeira vez em 27.set.1282, na Carta de Foro passada pelo Rei D. Dinis de um “herdamento (do Rei) que chamam Santa Marta do Julgado de Penagoyam”. In Chancelaria de D. Dinis, livro 1, f. 56 e 56 v. / por PARENTE, João, Idade Média no Distrito de Vila Real, Tomo II, pág 64.
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Nota 6: Capela de Santa Marta:
No Lugar do Alto, em Santa Marta de Penaguião, existe uma Capela dedicada a Santa Marta. Santa Marta é a padroeira da Região Demarcada do Douro, instituída com a criação da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro em 10 de Setembro de 1756 por alvará de D. José I. In IVDP, https://www.ivdp.pt/consumidor/historia. [c.23.jan.2021]
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Nota 7: Vitral da Casa do Douro 
[Santa Marta] "Protectora da Região Demarcada do Douro, o papel de ofício utilizado pelo provedor e deputados da Junta da Administração da Companhia-Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro (criada por Pombal, e instituída por alvará régio de 10 de Setembro de 1756) utilizava o Selo ou, como se diria hoje, o Logotipo da Instituição com a efígie da Santa e no fundo uma videira com a seguinte inscrição latina: "Providentia Regitur", que quer dizer: a Divina Providência governa (ou rege) tudo.
Santa Marta encontra-se reproduzida em belo vitral no edifício da Casa do Douro, no Peso da Régua, pela mão do Pintor Lino António. Este foi acabado em 1945 e sintetiza toda a dinâmica e beleza desta região, tem uma área aproximada de 50 m² formando um tríptico. No painel do centro podemos ver três grandes figuras.
A figura do centro representa a Casa do Douro, e mostra um pergaminho onde se lê "...Casa do Douro, decreto 21 883, Novembro de 1932". Quer isto dizer, que o governo, através do referido decreto-lei, cria a Federação Sindical dos Viticultores da Região do Douro, em Novembro de 1932, hoje Casa do Douro.
A figura [feminina] da esquerda representa a agricultura tendo aos seus pés uma enxada de ganchos. E a figura [masculina] da direita simboliza o comércio e tem na mão um caduceu. As figuras de mãos dadas simbolizam o pacto de honra e cavalheiros, entre a produção e o comércio do Vinho do Douro.
Na parte superior esquerda, está a capela devota de Santa Marta, padroeira do Douro."
in https://santamartadepenaguiao.wordpress.com/2011/03/29/hello-world/, [r.28.dez.2020]
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ESTA LENDA É UMA ADAPTAÇÃO LIVRE DE VÁRIAS VERSÕES DA LENDA DE SANTA MARTA
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por Monteiro deQueiroz, [Adaptação & Estudo][dia 21, ano 21, séc. 21]

Imagem da Net 1 - Foto de Vitor Neves - Excerto do vitral, painel central, existente no edifício da Casa do Douro, Peso da Régua, do Pintor Lino António, onde se encontra relatada a lenda. Vitral de 1945

Imagem da Net 2 - Excerto do vitral, parte esquerda do painel central, existente no edifício da Casa do Douro, Peso da Régua, do Pintor Lino António, onde se encontra relatada a lenda. Vitral de 1945

Imagem da Net 3 - Excerto do vitral, parte direita do painel central, existente no edifício da Casa do Douro, Peso da Régua, do Pintor Lino António, onde se encontra relatada a lenda. Vitral de 1945
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“Se não defendermos o que é nosso, quem é que o defende?”

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